Ser designer é tanta coisa que se torna difícil organizar as ideias e acabar num resumo claro.
Ser designer é, sobretudo, ser um psicólogo visual. É como se trabalhasse num consultório gráfico. Os clientes chegam, descrevem o seu "problema" e nós, indo de encontro ao seu perfil (e isto implica um estudo, uma análise e uma pesquisa extremamente detalhados), tentamos chegar a uma solução que seja viável e que funcione conforme a nossa perspectiva e que, ao mesmo tempo, seja suficientemente convincente e do agrado do cliente.
O pior é quando as nossas perspectivas estão completamente desalinhadas e a nossa função é (tentar) explicar que, conforme o bom senso do design, a solução que o cliente pensa ser a correcta simplesmente não funciona.
Aí gera-se uma guerra invisível. Do lado de lá conseguimos imaginar um portátil HP de 13", o Microsoft Outlook aberto e umas mãos no teclado com imensa vontade de escrever "Vocês são burros, isto é só fazer um quadrado!"
E deste lado os iMac's de 27" são as nossas janelas para o futuro, o Photoshop e o Ilustrator ajudam-nos a fazer coisas tão mágicas, como fazer as pessoas delirarem com os outdoors da nova temporada da série preferida ou o cartaz daquele concerto.
E no meio desta guerra toda entre cliente e designer a nossa verdadeira vontade é fazer uma montagem com a fotografia da cara da vítima no pior cenário possível.
Sim, ficamos com os nossos sentimentos criativos magoados quando ouvimos coisas como "isso é só fazer bonecos". Se quiserem podem abrir o Paint e tentar fazer um convite.
Ser designer é ter paciência e, se na altura não estiver em stock, é ter a capacidade de produzi-la de alguma forma.
Não temos que, obrigatoriamente, ser os geeks da tecnologia e ter um orgasmo intelectual cada vez que a Apple lança um novo gadjet. A verdade é que essa é a marca que lança os nossos instrumentos de trabalho preferidos. E a chegada do novo pacote da Adobe significa uma promoção.
Ser designer é ter um colapso cerebral cada vez que as alterações chegam em PowerPoint, pior é quando nos mandam conteúdos em Excel, nomeadamente imagens! Não quero tomar partido de ninguém, mas a verdade é que o Microsoft Office assemelha-se muito ao cubo mágico: sabemos o que é que faz, mas é tão difícil chegar a algum lado que o melhor é mesmo não mexer. E nós gostamos de coisas práticas, less is more.
Ser designer é descobrir todos os dias, pelo menos, um site ou um blogue, tentar desligar o computador à noite e delirar com "aquele cantinho" da Fnac.
Ser designer é ouvir o despertador entre as 07:45h e 08:30h, chegar a casa às 03:20h e, mesmo assim, conseguir ligar o rádio do carro, ouvir a música preferida e conseguir canta-la. Porque o sentimento de ver um projecto bem realizado é tão entusiasmante quanto a descoberta de um novo medicamento. A diferença é que não vem nos jornais.
Ser designer é poder usar "aqueles" tenis Nike, cortar o cabelo e usar umas calças não-sei-quê e, depois de levarmos com um tsunami de opiniões voluntárias, logo de seguida sermos confrontados com "Oh! São criativos (coitados)".
Ser designer é fazer reciclagem, não nos contentores, mas para os nossos projectos pessoais. É repararmos nas embalagens, comprar um pacote de bolachas só para ficarmos com uma referência visual. É termos uma pilha de 2m de revistas de todos os formatos e conteúdos, porque é uma referências visual. Tudo são referências visuais. E às vezes, coisas tão simples como aqueles anúncios que nos deixam presos ao pára-brisas, matam-nos por dentro. Não porque nos irrita (também), mas porque a concepção "daquilo"... enfim.
A memória visual é a nossa melhor amiga.
Ser designer é explicar todos os dias que fazer o que fazemos tem o seu tempo. E que por mais que as pessoas pensem que, à partida, "isto é uma coisa simples", não é.
Tentar perceber pensamentos que, a maior parte das vezes são o oposto dos nossos, é talvez o exercício mais desafiante desta profissão. E isso é o que nos destingue. Uma coisa é o que nós gostamos, outra coisa é fazermos o que os outros gostam, mesmo quando isso não tem nada a ver com o nosso gosto pessoal.
Ser designer é deixar a Bárbara, a Catarina e o Luís em casa, vestir o fato de psicólogo-criativo e salve-se que puder!
Mas no meio de tudo isto, ser designer é a melhor coisa do mundo! É ver, experimentar, explorar. É o detalhe. É a revista, o graffitti, a t-shirt, o carro, a fotografia, as ruas, as pessoas...
de fininho senti-me a ler pedaços de eça de Queirós... Agora tenho uma pergunta difícil... Ja vi que te fascina esse teu lado de designer... Mas agora pergunto-te...Suportarias um designer?
ResponderEliminarSuportar um designer acho que é mais fácil. Eu trabalho com designers e tenho amigos designers e estudei com "designers" eheh. O que nos faz compreender uns aos outros é sabermos o que é ser designer.
EliminarEu não acho os clientes uns bichos de 7 cabeças e sei que há coisas que é mais difícil saberem porque não estão a 100% por dentro do assunto... mas depois também há o senso comum. ahahahah! ok. eu juro que vou deixar de ser "má" :(